Tudo começou numa nuvem difusa, há muito, muito tempo. Começou num palco, com as cortinas negras como a noite, fechadas.
Depois abriram, e quando abriram, abriram-se as portas do meu coração. Estava ali tudo. O meu passado, aquele que se tornara uma vaga memória há muito, muito tempo, surgiu, emergindo das águas do esquecimento.
A bailarina surgiu, leve e doce como uma nuvem. Acho que voava, pois os seus pés não tocavam o chão. Sobrevoou a plateia com o olhar, e depois levantou voo. Fez os seus pés deslizarem ao de leve, e dançou, ao som da música que, ao mesmo tempo, me aconchegou a alma.
Nessa noite, eu prometi às estrelas que iria voltar a ser uma bailarina, como a do espectáculo. Apaixonei-me de novo por tudo, mais uma vez. Pelo som tosco das sapatilhas na madeira do palco, pela solenidade do fechar de cortinas, e o entusiasmo de as abrir. Recordei, pela primeira vez com um rasto de felicidade, o murmúrio das pontas das sapatilhas ao se rasgarem lentamente no palco, e da luz, que incide sobre a nossa pele, e nos faz brilhar, roubando o protagonismo à própria Lua.
O tempo parou nessa noite. Nessa noite, eu sorri, sorri por estar feliz, pela primeira vez em toda a minha vida.
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